Uma transição justa e agrícola cria raízes no Brasil

9 January 2026

by Oliver Gordon

20 minute read

A milenar prática indígena da agrofloresta está renascendo à medida que a indústria agrícola global busca atingir emissões líquidas zero sem sacrificar o sustento dos agricultores. Uma empresa no Brasil está demonstrando como ampliar essa solução climática baseada na natureza, que tem o potencial de sequestrar até 10% das emissões anuais de carbono da humanidade e, ao mesmo tempo, fortalecer milhões de agricultores familiares.


Em uma abafada tarde na cidade de Tomé-Açu no estado Pará, parte do coração agrícola do Brasil, o agricultor Zé Maria Pantoja caminha sob a copa de sua agrofloresta de 50 hectares. Enormes e esguias palmeiras de açaí e imponentes castanheiras-do-Pará se erguem acima de sua cabeça, enquanto as folhas das árvores carregadas de cacau e cupuaçu se aglomeram no solo; o ar está impregnado com o aroma das plantas tropicais e animado com o canto dos pássaros. 

É difícil imaginar que, há três décadas, esse Jardim do Éden era um terreno seco e degradado, coberto por uma moribunda monocultura de pimenta-do-reino, propriedade do pai de Zé Maria. “Meu pai achava que não daria certo”, lembra Zé Maria. “Pimenta-do-reino tinha que estar com pimenta-do-reino, cacau com cacau... Nunca daria certo plantar tudo junto.” A ideia radical de Zé Maria de replantar a fazenda como uma floresta de cultivos diversificados parecia loucura para seu pai; o debate que se seguiu foi tão acalorado que seu pai se mudou para a cidade para que Zé Maria pudesse continuar com seu trabalho na fazenda.

Zé Maria, agricultor agroflorestal em Tomé-Açu e parceiro da Belterra. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Hoje, o que antes era um árido terreno, se transformou em um multicolorido paraíso de abundância; frutos do cacau, de açaí, maracujás, castanhas-do-pará e mandioca crescem aqui. Ao invés da colheita anual de pimenta-do-reino, Zé Maria agora pode colher diferentes culturas agrícolas de alto rendimento durante o ano todo, o que dobrou a produção e a renda da fazenda e transformou sua vida e a de sua família. Até mesmo seu pai mudou de opinião: “Hoje está tudo bem. Ele concorda com isso e sei que está feliz”, diz Zé Maria com orgulho.

A agrofloresta de 50 hectares de Zé Maria — o equivalente a cerca de 70 campos de futebol. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Ele construiu um sistema agroflorestal (SAF), a integração de árvores e culturas agrícolas diversas juntas na mesma terra, prática que é tão ancestral quanto a própria agricultura, sendo praticado por povos indígenas em todo o mundo desde o início da primeira revolução agrícola, há 12.000 anos. Atualmente, a técnica está passando por um renascimento, à medida que a ciência e a indústria modernas alcançam a sabedoria tradicional. 

Os sistemas agroflorestais são agora considerados uma das principais respostas às mudanças climáticas. As árvores são as mais eficazes protetoras climáticas do mundo e, ao diluir a linha entre a agricultura e a floresta, os SAFs absorvem carbono, restauram solos degradados e aumentam a biodiversidade, tudo isso enquanto continuam produzindo alimentos e renda. Em grande escala, o potencial é enorme: um estudo recente estimou que a agrofloresta poderia sequestrar até 3,3 gigatoneladas de dióxido de carbono por ano. Isso representa cerca de 8% das emissões anuais de CO2 da humanidade – mais do que as emissões de todos os carros do mundo. E para o Brasil, cujas emissões são 75% provenientes do desmatamento e da degradação do solo, essa solução natural ganha um significado ainda profundo. “As pessoas às vezes pensam que é uma coisa ou outra – agricultura ou floresta”, diz Zé Maria. “Elas não entendem que é possível combinar as duas coisas.”

É importante ressaltar que Zé Maria não esteve sozinho em seus esforços. Nos últimos anos, ele fez uma parceria com a Belterra, uma empresa brasileira de agroflorestas criada em 2019. A partir do sucesso inicial de Zé Maria na criação de sua SAF, a Belterra o ajudou a expandir, fornecendo-lhe suporte técnico, mudas de qualidade o conectando a novos mercados. Parceria essa que vem ajudando a provar que uma fazenda familiar na Amazônia pode ser tanto lucrativa quanto ecologicamente sustentável.

O agricultor agroflorestal Zé Maria mostrando seus pés de cupuaçu e cacau em Tomé-Açu, Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

É esse tipo de trabalho com agricultores em todo o Brasil que rendeu à Belterra reconhecimento global. Em 2023, ela foi selecionada como finalista do Prêmio Earthshot por sua inovadora abordagem. “Organizações  como a nossa estão apoiando a Belterra porque ela mostra como construir uma empresa lucrativa em torno da restauração florestal e da subsistência dos agricultores”, explica Patrícia Daros, diretora do Fundo Vale, uma organização de fomento criada para gerar impacto socioambiental positivo, que aportou capital catalítico estratégico na Belterra desde 2020. “Esse é o tipo de modelo que precisamos para uma transição agrícola justa.”

De fato, para além dos esforços do Brasil e da Belterra, enquanto o mundo luta para alimentar uma população crescente sem desmatar os pulmões do planeta, a prática agroflorestal – com sua combinação de reduções de emissões, cocriação, saberes tradicionais, segurança alimentar e fortalecimento da agricultura familiar – pode ser a solução perfeita de transição justa para países onde o desmatamento e a degradação florestal são as principais fontes de emissões e de enfraquecimento dos meios de subsistência da agricultura familiar. De acordo com Marcelo Ferronato, presidente da ONG brasileira Ecoporé, “os sistemas agroflorestais são a melhor opção que o mundo tem para proteger o clima, o meio ambiente e os agricultores ao mesmo tempo”.

O problema: um modelo rural insustentável

Desde que foi colonizado pelos portugueses a partir de 1500, o modelo de desenvolvimento rural do Brasil tem se baseado no desmatamento e no extrativismo. Os portugueses administraram a terra “com base em um modelo de exploração de recursos, alimentado pelo trabalho escravo proveniente da África, em vez de um modelo de povoamento, como na América do Norte”, afirma André Campos, jornalista investigativo do Repórter Brasil especializado em cadeias produtivas. Isto é evidente na região da Bacia Amazônica: durante décadas, a política oficial incentivou os colonos a desmatar áreas de florestas “improdutivas” para dar lugar a fazendas de gado e plantações de soja.

Essa mentalidade pioneira de “cultivar e partir” dos anos 70 e 80 levou ao desmatamento em massa e à concentração de terras. Ao longo da última metade do século, mais de 700.000 km² da floresta amazônica foram desmatados — e outros 6% ficaram gravemente degradados. Muitos cientistas climáticos alertam que a Amazônia pode entrar em um processo irreversível de morte se perder 20% de sua cobertura florestal — ela já está perigosamente perto desse ponto de inflexão, com cerca de 17%. No entanto, a destruição continuou inabalável: entre 2019 e 2023, sob a presidência de Bolsonaro, a perda de árvores na Amazônia aumentou 72%. A maior parte desse desmatamento foi para dar lugar a pastagens para gado.

Ironicamente, esse desmatamento ocorreu às custas da produtividade agropecuária: cerca de 63% dos 160 milhões de hectares de pastagens do Brasil estão degradados — uma área aproximadamente do tamanho do Egito, que ficou infértil e tomada por ervas daninhas. Isso cria porém, um perverso estímulo para os agricultores, ao acabar incentivando a expansão e o desmatamento de mais florestas intocadas ao invés da regeneração das terras degradadas, cultivando assim um ciclo vicioso de destruição. Como resultado, a poderosa Amazônia, que já foi um dos maiores sumidouros de carbono do mundo, tornou-se um emissor em anos recentes.

O Brasil tem mais de 100 milhões de hectares de terras degradadas, o que representa 43% do desmatamento global. Fonte: Wikicommons

Terra degradada em Tomé-Açu, Pará. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Intervenções recentes do governo Lula conseguiram reduzir pela metade o desmatamento na Amazônia, mas Geraldo Wilson Fernandes, ecologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que isso apenas levou a um aumento do desmatamento em outras regiões do país. O bioma do Cerrado, por exemplo, perdeu desde então um milhão de quilômetros quadrados de floresta. “Se não protegermos outros ecossistemas no Brasil, ainda assim perderemos a Amazônia”, alerta. 

A faceta social desse desmatamento expansionista tem sido igualmente destrutiva. O Brasil tem uma das distribuições agrárias mais desiguais do mundo: apenas 2,8% dos proprietários concentram mais de 56% das terras cultiváveis, enquanto a fatia dos 50% dos pequenos agricultores mais pobres possuem apenas 2,5%.  Com registros fundiários frágeis, oportunistas e criminosos simplesmente se apropriam das terras as desmatando. E, na lógica do velho oeste, os mais fortes vencem – no Brasil, são os latifundiários, as grandes empresas do agronegócio e da mineração. Líderes comunitários e indígenas que se opõem à expansão implacável de monoculturas, pecuária extensiva ou mineração enfrentam ameaças, violência e até assassinatos.

Os agricultores familiares que persistem se tornam vulneráveis. As rendas podem variar bastante, mas uma família típica de agricultores com 20 hectares na Amazônia – como Zé Maria quando assumiu a fazenda de seu pai – consegue ganhar com sorte em torno de 20 mil reais por ano (cerca de US$ 3.700); basicamente o salário mínimo nacional, pouco mais que o necessário para sobreviver. “Assim, a pobreza se perpetua”, diz Ferronato, observando que, sem alternativas, um pequeno produtor muitas vezes vai tentar desmatar novas áreas numa tentativa desesperada de acompanhar os latifundiários.

O que começou como uma exploração supostamente racional de terras abundantes se transformou em uma catástrofe socioambiental em larga escala. Como alerta um relatório do Banco Mundial, as perdas econômicas decorrentes desse desmatamento desenfreado excedem o valor de todas as commodities obtidas. 

O Brasil, porém, é apenas um exemplo emblemático de um fenômeno que ocorre em toda a região tropical do globo, desde as florestas desmatadas da Bacia do Congo, passando pelas cicatrizes deixadas pelo cultivo de palma-de-óleo na Indonésia até as encostas devastadas da América Central. Globalmente, a agropecuária devorou cerca de 50% dos territórios habitáveis e deixou mais de um bilhão de hectares de terras degradadas. Esse rastro causado por pastagens para gado e monoculturas como as de soja é responsável por 80% do desmatamento mundial. Um relatório recente da ONU constatou que cerca de 1,7 bilhão de pessoas vivem em áreas onde a produtividade agrícola está em declínio devido à degradação do solo causada por atividade humana – “uma crise generalizada e silenciosa que está minando a produtividade agrícola e ameaçando a saúde dos ecossistemas em todo o mundo”. Ao mesmo tempo, a concentração de terra continua feudal: apenas 1% das propriedades agrícolas controlam mais de 70% das terras cultiváveis em todo o mundo, deixando milhões de agricultores familiares lutando às margens pela sobrevivência.

A solução: Agrofloresta - uma antiga solução aliada à ciência moderna

Basicamente, sistemas agroflorestais (SAFs) se referem ao cultivo conjunto de árvores e culturas agrícolas na mesma terra. Trata-se de um sistema agrícola de origem indígena que vem ganhando novo fôlego nos últimos anos com o apoio da ciência contemporânea. De fato, estima-se que, por milênios, as antigas sociedades amazônicas tenham cultivado “hortas florestais”, integrando palmeiras e árvores frutíferas com culturas alimentares, enriquecendo a floresta tropical em vez de desmatá-la em nome da agricultura. As SAFs são classificadas como uma forma de “agricultura regenerativa” – práticas agrícolas que também restauram ecossistemas naturais – envolvendo a mistura de plantas perenes lenhosas com culturas agrícolas ou gado, em arranjos simbióticos nos quais cada elemento sustenta os outros. 

As agroflorestas oferecem o que Saulo Franco de Souza, pesquisador brasileiro do Centro de Pesquisa Florestal Internacional e Agrofloresta Mundial (CIFOR-ICRAF), descreve como o “meio-termo” perfeito entre a agricultura convencional e o restauração florestal. Em termos práticos, envolve o cultivo de espécies complementares, em sequência linear e em fileiras variadas, onde a copa das árvores maiores protegem os arbustos espécies menores e gerem cobertura para o solo: as árvores fornecem sombra e proteção contra o vento para as culturas abaixo — e para o agricultor que as cultiva —, além de preservar a umidade do solo. As raízes das leguminosas fixam nitrogênio para nutrir a terra. E as árvores frutíferas e lenhosas fornecem fontes de renda para complementar as colheitas anuais. Uma agrofloresta eficaz oferece rendimentos durante todo o ano e proporciona resiliência de renda — se uma cultura falhar, há outras para se recorrer.

Ao substituir as monoculturas por policulturas, as agroflorestas procuram imitar os ecossistemas naturais. Pesquisas mostram que elas superam as monoculturas em diversos aspectos: restauração da saúde do solo, conservação da água e preservação da biodiversidade. A diversidade e mistura de plantas também gera um controle natural de pragas e previne a erosão do solo de forma mais eficaz do que as fazendas de monocultura. 

A integração de árvores em pastos e terras cultiváveis também transforma as fazendas em sumidouros de carbono. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) estima que, se ampliada para atingir seu potencial global, os SAFs poderiam sequestrar de 1,8 a 4,1 gigatoneladas de CO2 por ano — o que representa aproximadamente 4 a 10% de todas as emissões anuais de CO2 da humanidade. 

E o mais importante – do ponto de vista de uma transição justa –, a agrofloresta também pode melhorar os meios de subsistência dos agricultores. SAFs podem aumentar significativamente seus rendimentos: por exemplo, a integração de árvores Faidherbia, que fixam nitrogênio, nos campos de milho em todo o sul da África ajudou 500.000 agricultores a aumentar suas colheitas de milho em 200-300%. Similarmente, locais de teste na Zâmbia que integraram árvores Faidherbia Albida produziram de 88 a 190% mais milho do que locais sem as árvores. Além disso, ao diversificar o que é cultivado em suas terras, os agricultores podem criar múltiplas fontes de renda – incluindo mais alimentos, madeiras e outros produtos – em vez de depender de apenas uma. Em partes da África Oriental, por exemplo, a adoção de SAFs contribui em média com quase 30% da renda familiar total, reduzindo significativamente os níveis de pobreza local.

O modelo da Belterra: gerando valor por meio da regeneração

O fundador da Belterra, Valmir Ortega, percorreu um longo caminho até se tornar CEO. Na década de 2000, ele trabalhou como secretário do meio ambiente no estado do Pará, ajudando a supervisionar uma redução de 85% no desmatamento na Amazônia. Mas, apesar do sucesso, ele previu uma falha no plano:  “Depois que o desmatamento criminoso foi combatido, nosso próximo grande desafio [era] oferecer uma alternativa econômica que pudesse melhorar o uso sustentável da floresta... bem como [sua] restauração”, lembra ele. Fundamentalmente, como o Brasil poderia restaurar milhões de hectares de terras degradadas e, ao mesmo tempo, apoiar os meios de subsistência da população rural? Acreditando que essa era a “maior missão do Brasil”, ele deixou o governo em 2019 para fundar a Belterra, uma empresa de orientação social que visa combinar conservação e comércio para transformar vastas áreas de terras agrícolas degradadas em agroflorestas produtivas. A ideia era “dinamizar a economia da floresta”, como diz Ortega, capacitando os agricultores a revolucionar a abordagem nacional à agricultura.

Organizações como o Fundo Vale acreditaram na visão de Ortega, ajudando a financiar a startup como parte da iniciativa filantrópica de restauração florestal. “Das 69 empresas que mapeamos, a Belterra foi uma das poucas que achamos que poderia de fato se expandir para conseguir restaurar milhares de hectares”, lembra Patrícia Daros, diretora do Fundo Vale. Para o Fundo Vale, a Belterra se destacou por ocupar um elo fundamental e ausente entre os agricultores e os mercados na cadeia de abastecimento agroflorestal; por estar estruturalmente alinhada com investimentos pacientes e de longo prazo; e por ser um modelo que poderia ser facilmente replicado. 

“As pessoas às vezes pensam que é uma coisa ou outra – agricultura ou floresta. Elas não entendem que é possível combinar as duas coisas.”

Com esse apoio, Ortega criou duas entidades em 2020: uma empresa privada, a Belterra Agroflorestas, e uma organização irmã sem fins lucrativos, o Instituto Belterra (Ibel). A empresa privada trabalharia com propriedades rurais que oferecessem potencial de lucro tanto para a Belterra quanto para o agricultor, e a organização sem fins lucrativos trabalharia com agricultores de subsistência — especialmente aqueles de origem indígena e quilombola  — ainda muito pequenos para obter margens de lucro significativas. O objetivo era criar um modelo de negócios sustentável a partir de sistemas agroflorestais no Brasil que conseguisse  incentivar os agricultores a escolhê-la em vez das práticas agrícolas tradicionais, servindo assim como um “ponto de encontro” entre a regeneração de ecossistemas e a “geração de impacto na renda [e] qualidade de vida” dos agricultores, como diz Ortega.

Embora os acordos sejam estabelecidos caso a caso, a Belterra Agroflorestas trabalha com os agricultores sob dois modelos básicos: a parceria rural e o arrendamentos de terras. 

Para os agricultores que possuem terras com um pouco mais de estrutura – como Zé Maria –, o modelo de parceria permite que a Belterra estabeleça um acordo de repartição de receitas com o agricultor. O agricultor fornece parte da terra a ser trabalhada, parte da mão de obra caso tenha e, às vezes, o coinvestimento, e a Belterra fornece o capital e assessoria técnica – mudas, insumos, treinamento e acesso ao mercado. Os lucros são repartidos de acordo com a proporção do investimento de cada parte. Por exemplo, se o agricultor optar por pagar 30% dos custos iniciais, ele ficará com 30% das receitas futuras. Agora, se o agricultor puder oferecer apenas a terra e sua própria mão de obra, a Belterra cobre os custos de investimento de capital e arrenda a terra do agricultor, garantindo que os lucros sejam divididos de forma justa. É importante ressaltar que o agricultor mantém a propriedade e o uso da terra. “Esta é uma transição cocriada com os agricultores, não imposta a eles”, enfatiza Ortega.. Os agrônomos da Belterra trabalharão com o agricultor para decidir a melhor combinação de culturas para o terreno e ajudarão a implementar uma agrofloresta que pode começar a gerar lucros em um ou dois anos. Fileiras de mandioca e banana crescendo sob copas emergentes de cacau, açaí e mogno por exemplo, podem proporcionar uma renda rápida, enquanto os últimos geram rendimentos de médio a longo prazo.

O cacau (à esquerda) e o açaí (à direita) são uma combinação altamente produtiva para SAFs no Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

No modelo de arrendamento de terras da Belterra, a empresa faz parceria com proprietários que possuem pastagens degradadas que não estão sendo utilizadas. Esse é um fenômeno comum no Brasil, onde as pastagens são tão degradadas pelo pecuária que se tornam inviáveis economicamente. Tão comum que as terras degradadas são frequentemente ocupadas por ativistas da reforma agrária, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, sob a Lei da Função Social da Terra do país, que penaliza propriedades improdutivas. Em vez de deixar a terra ociosa, o proprietário pode alugá-la à Belterra, que a transformará em uma agrofloresta produtiva e a devolverá ao proprietário para que ele a administre após um período definido, tendo obtido lucro com a produção nesse meio tempo.

Um exemplo é a Fazenda ITA, na cidade de Santa Isabel do Pará. Outrora uma fazenda de gado, décadas de pastagem excessiva  esgotaram seu solo. “Deixou de ser rentável ter uma fazenda de 68 hectares com os 10 animais que ela podia sustentar”, explica João Natan Tavares de Araújo, gerente de campo da Belterra na Fazenda ITA. O proprietário arrendou a terra à Belterra em um contrato de 12 anos, que desde então plantou uma mistura de árvores frutíferas e madeiras nobres. O proprietário ganha uma renda de 1.000 reais por mês e herdará uma fazenda agroflorestal lucrativa ao final do contrato. A Belterra levará três anos para que o SAF esteja totalmente produtivo, restando ainda nove anos de receitas com a venda dos produtos para assim cobrir os custos de instalação e obter lucro.

João Natan Tavares de Araújo, da Belterra. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Enquanto isso, agricultores familiares da região conseguem empregos e treinamento no novo SAF, muitas vezes atuando como “multiplicadores”. “Não estamos apenas deixando uma fazenda produtiva, mas também pessoas treinadas... que podem divulgar o trabalho de forma orgânica”, acrescenta, descrevendo como ex-trabalhadores rurais estão se tornando praticantes agroflorestais.

Uma diferença de um ano e meio na fazenda ITA: à esquerda antes de a Belterra arrendá-la e à direita já com um SAF em expansão. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Mas a implementação de sistemas agroflorestais não é barata: requer um investimento inicial de cerca de R$ 54.000 por hectare nos primeiros três anos - algo em torno de R$1.500 por mês por hectare, para mudas, restauração do solo e manutenção. Para financiar isso, a Belterra utiliza financiamento misto; uma combinação de investimentos privados, públicos e filantrópicos. A empresa criou um mecanismo de financiamento inovador para reunir capital: investimento filantrópico (grants) e fundos de impacto “catalítico” absorvem os riscos iniciais, enquanto investidores privados (incluídos por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio - CRAs Verdes) fornecem empréstimos com expectativa de retorno a longo prazo. Até agora, esse fundo em camadas já arrecadou mais de R$ 300 milhões.

Normalmente, os projetos da Belterra tornam-se lucrativos após três anos, quando as culturas agrícolas de rendimento precoce, como as frutas, começam a produzir. Após dez anos, uma agrofloresta madura gera renda estável apenas com as colheitas, excedendo em muito o rendimento das fazendas de gado ou das monoculturas de soja. “Um pequeno produtor que cria gado pode ganhar apenas 1.000 a 2.000 reais por hectare por ano”, observa Ferronato. “Na mesma área, com a agrofloresta, ele pode ganhar até 10.000-12.000 reais – ou seja, dez vezes mais.” 

Ainda assim, as árvores levam anos para dar frutos e as agroflorestas podem enfrentar um “atraso no retorno” substancial,  adverte Ferronato. A Belterra cobre esse déficit com apoio financeiro inicial e com o cultivo intercalar de culturas de rápido crescimento, como mandioca, milho e feijão, para fornecer alimentos e renda no curto prazo. “Não adianta se o sistema só se tornar produtivo no quinto ano – o agricultor vai abandoná-lo”, explica Ortega. “O agricultor precisa de alimentos e renda no primeiro ano.” 

A Belterra também complementa essas receitas com a venda de créditos de carbono. A partir do segundo ano, cada hectare de agrofloresta começa a sequestrar uma quantidade substancial de carbono – em média, 136 toneladas de CO2 ao longo de 14 anos nos projetos da Belterra. A Belterra agrega e certifica essas reduções de emissões para vender como créditos de carbono, criando uma fonte de renda extra para ajudar a reembolsar os investidores ou recompensar os agricultores. Ortega insiste que esses créditos de “alta integridade” são a cereja do bolo, mas o fluxo de caixa real vem do cacau, frutas, óleos, madeira e outros produtos agroflorestais.

Expandindo com grandes empresas: transformações na cadeia de valor

Mas a Belterra não está trabalhando apenas da base para cima. Grandes empresas estão cada vez mais colaborando com a organização, buscando integrar a prática agroflorestal em suas cadeias de valor e estratégias climáticas, trazendo financiamento corporativo e escala para o setor. Por exemplo, a gigante do agronegócio Cargill está fazendo parceria com a Belterra em um projeto de SAF de cacau de 1.000 hectares no estado brasileiro de Mato Grosso, ao sul do Pará. O projeto de três anos, financiado com R$ 34 milhões fornecidos pela Cargill e seu banco, financiará o plantio de um milhão de cacaueiros junto a outras culturas agrícolas. O cacau é um cultivo ideal para agroflorestas, pois cresce bem à sombra e enriquece o solo – ideal para restaurar terras degradadas. Para a Cargill, o projeto apoia sua meta de restaurar 100.000 hectares de terras degradadas no país, mas ao mesmo tempo também impulsionará sua produção de cacau. Fundamentalmente, a Cargill não está apenas pagando pelo plantio das árvores, mas também comprará o cacau produzido pelo projeto – garantindo aos agricultores uma renda segura e estável. “Estamos participando como financiadores... mas também compramos todo esse cacau para gerar liquidez”, disse Laerte Moraes, líder da Cargill na América do Sul, no lançamento do projeto, observando que isso garante ganhos de curto e longo prazo para os produtores. Por sua vez, a Belterra trabalhará com os agricultores para projetar, implementar e colher os sistemas agroflorestais. 

A Belterra também trabalhou com a marca brasileira de cosméticos Natura, líder global em cadeias de suprimentos sustentáveis, na ampliação de um pioneiro projeto de agrofloresta para dendê sustentável com o objetivo de restaurar 12.000 hectares em todo o Pará. O projeto “SAF Dendê”, que inclui uma ampla gama de parceiros, incluindo a importantíssima coperativa de agrofloresta da região, CAMTA, já demonstrou ser mais produtivo do que as plantações tradicionais de dendê e chegando a armazenar 50% a mais carbono em seus solos. Apoiado pelo Governo do Pará, o projeto contribui para a meta da Natura de garantir uma fornecimento de dendê livre de desmatamento para seus cosméticos. 

A Natura se comprometeu em se tornar uma empresa regenerativa até 2050: com o objetivo de atingir emissões líquidas zero em suas próprias instalações até 2030, eliminar o desmatamento nas cadeias de suprimentos essenciais até 2030 e garantir que todas as embalagens sejam reutilizáveis, recicláveis, compostáveis ou reabastecíveis até 2030. Como parte dessas metas, a empresa adotou uma abordagem inovadora de “insetting de carbono”, que envolve reduzir as emissões dentro de sua própria cadeia de suprimentos – por exemplo, plantando árvores nas fazendas que a abastecem – em vez de pagar outros para compensar as emissões em outros lugares externos. Para a Natura, projetos como o SAF Dendê “custam menos por unidade de carbono, e os agricultores ainda recebem mais do que receberiam de um projeto privado de carbono no mercado”, diz João Teixeira, gerente de ação climática da Natura. Basicamente, eles estão eliminando o intermediário – e sua comissão. Mas o apelo vai além do carbono: à medida que eventos climáticos extremos afetam as plantações, as agroflorestas oferecem resiliência contra ameaças como a seca. Essa proteção é inestimável para uma empresa como a Natura, que depende de fluxos constantes de castanhas-do-pará, óleo de andiroba e manteiga de cupuaçu por exemplo. Um SAF tem muito menos chances de entrar em colapso em um ano ruim. “Por meio dos SAFs, é mais certo que teremos nossos ingredientes por muito mais tempo”, diz Bianca Marcuartú, coordenadora de sustentabilidade na Natura.

Mas talvez a parceria de maior destaque da Belterra tenha sido um acordo firmado em 2023 com a gigante americana do comércio eletrônico Amazon, que concordou em fornecer 90 milhões de reais (aproximadamente US$ 18 milhões) para financiar projetos de agroflorestas no Pará, como parte de seu Compromisso Climático de atingir emissões líquidas zero até 2030. A fase piloto inicial de três anos busca restaurar 3.000 hectares de terras degradadas com o plantio de árvores nativas ao lado de culturas agrcicolas omerciais, como o cacau. O projeto trabalha atualmente com cerca de 1.000 produtores em todo o estado, com cada hectare sequestrando cerca de 136 toneladas de CO2 ao longo de 14 anos. A Amazon planeja reivindicar cerca de 750.000 toneladas de créditos de carbono de "alta integridade" dos 3.000 hectares iniciais ao longo de 30 anos – todos certificados sob o novo padrão ABACUS da Verra, que a Amazon ajudou a desenvolver para garantir a integridade do sequestro florestal de carbono. “A agrofloresta está no topo da nossa lista de soluções climáticas catalisadoras e escaláveis”, observa Jamey Mulligan, chefe de ciência e estratégia de neutralização de carbono da Amazon, “porque ela devolve as árvores de volta à paisagem e impulsiona os meios de subsistência de agricultores de maneiras que eles consigam se sustentar mesmo sem financiamento de carbono. É um espaço nascente que precisa ser cultivado, como a indústria solar antes de 2008.”

A Associação dos Produtores de Sequestro de Carbono do Brasil (Asproscar). (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

No município de Acará, no Pará, a parceria Amazon–Belterra ganha vida na forma da Associação dos Produtores de Sequestro de Carbono (Asproscar), um coletivo de 16 famílias de pequenos agricultores, cada uma administrando sua própria propriedade agroflorestal em uma área agora verdejante de açaí, cacau, andiroba e outras espécies. A associação agrega essas propriedades agroflorestais dispersas para que os agricultores familiares possam ter acesso coletivo ao financiamento de carbono, sem abrir mão de suas terras, autonomia ou escolha de culturas agrícolas. Para a Amazon, isso oferece escala e rastreabilidade; para os agricultores, oferece poder de barganha e uma proteção contra a longa espera até que as árvores amadureçam. Os créditos de carbono aqui não são o centro de gravidade do projeto, mas uma ponte – uma forma de pagar aos agricultores para que continuem com seus SAFs por tempo suficiente para que os alimentos, a madeira e as culturas perenes assumam o controle. “Sozinhos, somos pequenos”, explica o agricultor familiar José Maria De Souza, enquanto nos mostra sua agrofloresta em expansão. “Juntos, somos fortes e sustentáveis.” O presidente da Associação, Matuzalém Ferreira, acrescenta: “a agrofloresta é sobre aprender a conviver com a natureza, e não dominá-la”.

José Maria De Souza, agricultor familiar da Asproscar (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

O atrativo das parcerias corporativas é evidente: empresas como Amazon, Cargill e Natura podem fornecer o financiamento e a capacidade técnica para ampliar adequadamente a restauração, garantir mercados para os produtos agroflorestais e, como resultado, criar empregos nas áreas rurais. Os agricultores familiares têm acesso a capital, treinamento e compradores estáveis, tornando a agrofloresta uma alternativa financeiramente viável à pecuária ou à soja — os SAFs da Belterra já geram dez vezes mais renda por hectare do que a soja e até quarenta vezes mais do que a pecuária. Em troca, essas gigantes corporativas recebem um mecanismo eficaz para garantir suas cadeias de suprimentos e compromissos climáticos simultaneamente. “A parceria com a Belterra realmente nos interessou, pois, quando buscamos soluções climáticas, tentamos encontrar empresas que tenham modelos de negócios sustentáveis que possam de fato ser ampliados — em vez de trabalhar com ONGs em pequenos projetos pontuais”, diz Mulligan. 

No entanto, existem riscos associados a estes tipos de parcerias. Estudiosos alertam para uma forma de “colonialismo do carbono” associada a acordos baseados em compensações que estão mais orientados para os compromissos corporativos de emissões líquidas zero do que para o desenvolvimento local, com uma série de controvérsias nos mercados de carbono nos últimos anos envolvendo contabilização imprecisa do carbono e exploração de comunidades locais, comprovando estas preocupações. O modelo da Belterra tenta combater esse extrativismo, mantendo sempre os agricultores familiares no centro: os proprietários locais mantêm a propriedade de suas terras ou participam dos lucros, e os planos dos SAFs são sempre cocriados em conjunto.

Mauricio Silva Dos Santos, agricultor familiar da Asproscar. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Gente e territórios: o impacto humano

A transformação da fazenda de Zé Maria não foi instantânea. Mas, ao longo dos últimos anos, Zé Maria viu a vida retornar à sua terra. Suas árvores agora protegem o solo, preservam a água e lhe dão frutos. Ele produz seu próprio fertilizante. Ele não faz mais queimadas. Sua fazenda se tornou, em suas palavras, “uma escola” para a comunidade em geral. Visitantes chegam regularmente para aprender com o professor.

A parceria entre seu Zé Maria e a Belterra já tem três anos. O consultor agrícola da empresa, Emanuel Oliveira, sorri ao descrever a influência de Zé Maria. “Aprendemos muito com ele; ele é como um professor pra mim. Passamos as lições para outros agricultores e, muitas vezes, os trazemos aqui para aprenderem diretamente com ele.”

Emanuel Oliveira, consultor agrícola da Belterra (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Zé Maria tem prazer em transmitir sua sabedoria. Pois foi assim que ele também aprendeu com um dos grandes mestres da agrofloresta de Tomé-Açu há muitos anos, Michinori Konagano, um homem que os moradores locais reverentemente chamam de o “sensei da floresta”.  Konagano é um agrônomo nipo-brasileiro e ex-presidente da CAMTA (Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu), uma importante cooperativa agroflorestal da região. 

A CAMTA foi fundada na década de 1920 por uma migração de agricultores japoneses que fugiram da quebra da safra de arroz em seu país. Eles se estabeleceram em Tomé-Açu e criaram principalmente monoculturas lucrativas de pimenta-do-reino. Mas, após uma série de colheitas desastrosas no final da década de 1960, Konagano e outros começaram a adaptar o conhecimento histórico japonês de cultivo de policulturas às práticas agroflorestais tradicionais das fazendas ribeirinhas dos povos amazônicos locais, aliando os dois juntamente com técnicas modernas de análise de solo, para criar sua própria abordagem localizada e única de agrofloresta: o Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu – a “SAFTA”. Hoje, a CAMTA é composta por 2.800 agricultores – tanto de ascendência japonesa quanto brasileira – e é considerada uma das principais bases do renascimento das agroflorestas no país.

Sede da CAMTA, Tomé Açu, Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Com quase 80 anos, Konagano é a personificação de uma vida inteira de conhecimento. Ele lembra que, quando chegou à Amazônia, a terra era tratada como um inimigo a ser conquistado. Queimadas eram comuns, desmatar era vista como uma questão de sobrevivência. A agrofloresta, explica ele, surgiu como uma necessidade.“

Plantamos e vimos que, realmente, quando combinávamos certas espécies juntas, elas cresciam melhor”, diz ele. Hoje, seu SAF abrange uma vasta área de 280 hectares, cerca de 280 campos de futebol. Sua fazenda é uma importante fornecedora de mudas para a Belterra, e é o que há de mais próximo no Brasil de uma fazenda agroflorestal em escala industrial, repleta de maracujás, cacau, castanhas-do-pará, açaí, árvores madeireiras e muitas outras espécies, todas cultivadas em policultura em estratos diversos. Ele vê a agrofloresta não apenas como uma solução técnica, mas como uma filosofia. “Você precisa entender a natureza. Se você a entender, poderá viver em harmonia com ela. O segredo é o cuidado. Você cuida do solo, e ele cuida de você.”

Michinori Konagano, pioneiro da agrofloresta no Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Na visão de Konagano, a sustentabilidade não é apenas ecológica ou financeira: trata-se de garantir que famílias tenham meios de subsistência dignos e estáveis ao longo das gerações, com trabalho e renda – e, portanto, colheitas – “12 meses por ano”. É por isso que ele enfatiza a importância do livre compartilhamento de conhecimento com estudantes, agricultores familiares e comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas. Para ele, se os agricultores familiares tiverem melhores habilidades, organização (em cooperativas) e acesso ao conhecimento, eles podem resistir à venda ou ao arrendamento de terras para grandes empresas do agronegócio, permanecendo na terra e se tornando assim os verdadeiros motores das economias locais. “As pessoas são a sustentabilidade”, diz ele, sentado em frente a uma grande placa em sua varanda com as palavras “Aqui, todo mundo cresce junto!”. “O conhecimento deve ser gratuito e eu ensinarei qualquer pessoa que queira vir aprender – como Zé Maria fez há muitos anos.”

A vasta agrofloresta de 280 hectares de Michinori Konagano em Tomé-Açu, Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Subindo várias horas de carro ao norte, no arquipélago de Marajó – uma massa de terra do tamanho da Suíça na foz do Amazonas, na costa norte do Brasil –, o Instituto Belterra está levando a mesma filosofia para uma das regiões mais pobres do país. Por meio do projeto Marajó Resiliente, o Instituto Belterra e seus parceiros estão ajudando agricultores de subsistência a fazer a transição da agricultura por queimadas para a agrofloresta regenerativa.

Erandir Pinho, multiplicador do projeto Marajó Resiliente com o Instituto Belterra. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Erandir Pinho, um tímido agricultor quilombola de quase 70 anos, com olhos gentis e sorridentes, costumava cultivar apenas abacaxi em sua fazenda. Ele praticava a tradicional agricultura por queimadas, alternando suas plantações a cada dois ou três anos, à medida que o solo se degradava. O ciclo de desmatamento esgotava seu tempo e sua terra, e reduzia a produtividade a cada repetição. Hoje, sua terra já conta com culturas diversificadas, como mandioca, banana, açaí, batata-doce, milho e mudas de cacau – uma pequena agrofloresta com apenas oito meses de existência. Agora, ele diz que se sente “consolidado”. Ele está investindo no mesmo pedaço de terra ano após ano. “Antes, pensávamos que a floresta, o mato, era algo que precisávamos eliminar”, diz ele. “Agora entendemos que ela pode também nos alimentar.”

Seguindo um pouco a estrada, Rosivam Monteiro fez o mesmo. Há dois anos, ele perdeu grande parte de sua safra de abacaxi devido a uma seca devastadora. “Eu vi as mudanças climáticas na prática e percebi que precisava mudar”, diz ele. Ele recebeu treinamento da Belterra e, no início de 2025, começou a implementar um projeto de SAF combinando uma grande variedade de culturas – mandioca, melancia, abóbora, feijão, açaí, cupuaçu, acerola, banana, mamão, maracujá e milho. Oito meses depois, ele já está colhendo os frutos das safras de melancia e mandioca. 

Rosivam está totalmente comprometido, até mesmo com práticas agroecológicas para nutrir sua agrofloresta em expansão. Ele tem um pequeno lago em seu quintal, onde cria peixes. Os excrementos dos peixes – ricos em amônia – são usados como fertilizante para as culturas. “Tudo é circular na fazenda, todos os resíduos têm uma função – assim como na natureza”, diz ele.

Fazenda de Rosivam Monteiro, multiplicador do projeto Marajó Resiliente com o Instituto Belterra (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Além disso, Rosivam e Erandir também se ofereceram para se tornar “multiplicadores” no projeto Marajó Resiliente – ensinando e ajudando os agricultores vizinhos a aprender e adotar os métodos da agrofloresta. Marcos Lameira, técnico de campo do Instituto Belterra, considera esta transformação a parte mais importante do trabalho. “Não queremos apenas plantar árvores”, afirma. “Queremos mudar a forma como as pessoas se relacionam com a terra.” Os quintais agroflorestais, explica ele, tornam-se locais de experimentação, cooperação e esperança. “Quando um agricultor começa a ver seu quintal como uma agrofloresta, tudo muda.” Essa mudança, acrescenta Marcos, deve ser coletiva. O modelo funciona melhor quando o conhecimento é compartilhado horizontalmente: entre vizinhos, famílias e gerações.

“Antes, pensávamos que a floresta, o mato, era algo que precisávamos eliminar. Agora entendemos que ela pode também nos alimentar.”

Os números confirmam isso. De acordo com dados coletados pela Belterra e seus parceiros do projeto Marajó Resiliente os primeiros a adotar o modelo em Marajó viram uma redução de 30% a 50% na necessidade de desmatar novas terras em apenas três anos. A matéria orgânica nos solos aumentou em até 60% nas parcelas de teste. Os rendimentos estão se estabilizando, as pragas diminuíram e a diversidade alimentar das famílias aumentou. A floresta — ou pelo menos uma versão dela — está voltando, com todos os benefícios que isso traz.

Ecilene Pena, multiplicadora do projeto Marajó Resiliente com o Instituto Belterra. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Os caminhos pro sucesso e os desafios a serem ainda superados

Após apenas cinco anos de existência, a Belterra já alcançou resultados impressionantes. Até agora, a empresa transformou 2.000 hectares de terras degradadas por todo o Brasil em novas agroflorestas produtivas e biodiversas. Os projetos da Belterra também estão protegendo 18.000 hectares de floresta nativa em pé – ao integrar a prática agrícola com a conservação florestal, essas áreas permanecem intactas, em vez de serem desmatadas para monoculturas. O impacto climático também é significativo: a Belterra estima que cada hectare sequestrará 250 a 300 toneladas de carbono em um ciclo de 25 a 30 anos, o que equivale a aproximadamente 500.000 a 600.000 toneladas de carbono para os projetos existentes da Belterra.

E, fundamentalmente, esse trabalho também está tendo resultados notáveis para a vida dos agricultores familiares participantes. No modelo da Belterra, um agricultor que antes ganhava quase nada em terras degradadas (muitas vezes apenas R$ 400 por hectare por ano) pode, após uma década de SAF, ganhar de R$ 37.000 a R$ 100.000 por hectare anualmente – muito mais do que o salário mínimo anual brasileiro de R$ 19.452. Até agora, cerca de 80 produtores rurais aderiram às parcerias de arrendamento de terras da Belterra e cerca de outros 200 agricultores familiares estão recebendo treinamento e assistência técnica em práticas agroflorestais regenerativas por meio de parcerias rurais. A empresa criou diretamente mais de 300 empregos em tempo integral, além de outros 200 empregos temporários durante as épocas de plantio.

O modelo de negócios da Belterra também recebeu a aprovação do mercado financeiro. A empresa captou mais de R$ 320 milhões com investidores e comercializou além de 300 mil créditos de carbono em operações-piloto. E, no final de 2025, o BNDES aprovou um empréstimo de R$ 100 milhões a juros baixos por meio do Fundo Brasileiro para o Clima para ajudar a Belterra a expandir SAFs em quatro estados, o que permitirá a restauração de mais 2.750 hectares de pastagens até 2027 – com projeção de sequestro de cerca de 850.000 toneladas de CO2 nos anos que virão.

Produtos agroflorestais da Associação de Produtores de Sequestro de Carbono em Tomé Açu, Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

No entanto, apesar do sucesso inicial, a Belterra — assim como todos os promotores da agrofloresta pelo mundo — enfrentam uma série de desafios fundamentais para conseguir ampliar suas atividades ao seu potencial pleno. Desafios que, se não forem resolvidos, irão limitar todas as esforços da indústria agroflorestal de se tornar uma solução de transição justa e confiável na luta para alcançar emissões líquidas zero.

No Brasil, o agricultor familiar médio tem mais de 60 anos, e “é difícil mudar hábitos antigos”, especialmente para um grupo de trabalhadores com um olho na aposentadoria aprender um sistema tão complexo e diversificado como os SAFs, segundo Ferronato. Os especialistas enfatizam a importância da divulgação e do compartilhamento de conhecimento, simplificando a linguagem dos sistemas agroflorestais e demonstrando seus benefícios na prática. “Temos que plantar uma semente na mente das pessoas”, diz João Araújo, da Belterra.

Além disso, tais agricultores também precisam de conhecimento técnico e apoio para implementar agroflorestas. SAFs exigem novas técnicas para o plantio de árvores, sua poda, manejo do solo e muito mais – mas milhões de pequenos agricultores não têm acesso a assistência técnica ou treinamento adequado. O Brasil tem mais de 100 milhões de hectares de terras degradadas, mas os produtores rurais não adotarão práticas regenerativas a menos que recebam os conselhos, as ferramentas e as mudas necessárias. No Brasil, os serviços de “extensão rural” – o fornecimento de treinamento, informações e apoio aos agricultores e comunidades rurais, ensinando novas técnicas, estratégias de mercado e gestão de recursos – são lamentavelmente inadequados para essa tarefa, principalmente devido ao isolamento dos agricultores familiares em locais como a Amazônia.

“Temos que plantar uma semente na mente das pessoas”

A intensidade do trabalho é outro fator – a manutenção de fazendas com culturas agrícolas diversificadas é mais trabalhosa do que o manejo de monoculturas. O governo e o terceiro setor precisam intensificar seus esforços, mas “é aqui que os modelos de parceria rural e arrendamento da terra da Belterra podem ser muito eficazes”, acrescenta Pedro Ferro, gerente de investimentos na SYSTEMIQ e da Partnerships For Forests (P4F) América Latina, um programa que visa apoiar iniciativas do setor privado que protegem as florestas e promovem o uso sustentável da terra.

Os sistemas agroflorestais também apresentam altos custos iniciais e acesso insuficiente a financiamento. Transformar pastagens degradadas em agroflorestas requer um investimento inicial significativo em itens como mudas, fertilizantes, irrigação e mão de obra, que custam até R$ 60.000 por hectare antes de gerarem qualquer retorno. Pouquíssimos agricultores familiares podem arcar com esses custos, e poucos bancos consideram esses agricultores credíveis. Os empréstimos agrícolas tradicionais têm altas taxas de juros e curtos períodos de carência, enquanto uma agrofloresta convencional normalmente leva de cinco a dez anos para se tornar lucrativa. Para que a agrofloresta se expanda como indústria, é necessário capital paciente, com empréstimos de longo prazo, financiamento mistos e subsídios para cobrir essa lacuna financeira. O modelo de arrendamento da Belterra e sua capacidade de gerar lucros muito mais rápidos em uma parcela de agrofloresta (em 1 a 2 anos) oferecem um potencial significativo aqui, mas não podem atender a todos. Inovações em financiamento misto, como o empréstimo do Fundo Climático do BNDES (um empréstimo público de longo prazo e juros baixos, com risco reduzido por garantias governamentais e filantrópicas), serão necessárias em todo o setor, caso contrário, os financiadores podem se afastar por conta dos horizontes temporais. “É preciso promover a agrofloresta internamente, pois leva muito tempo para ver o retorno do investimento”, diz Bianca Marcuartú, coordenadora de sustentabilidade na Natura.

Bianca Marcuartú, coordenadora de sustentabilidade da empresa brasileira de cosméticos Natura. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

Existem também barreiras às SAFs que são inerentes à cadeia de suprimentos comercial. Mesmo que os agricultores cultivem suas mercadorias, eles precisam de um mercado e de uma infraestrutura logística para poderem vendê-las. “Onde está o mercado em escala industrial e a cadeia de abastecimento para produtos como açaí, cupuaçu ou mesmo cacau regenerativo?”, questiona Campos. “Porque certamente existe para carne bovina barata e soja ou óleo de dendê cultivados em monocultura – que também se beneficiam de subsídios em larga escala.” A Natura está provando que esses mercados podem ser fomentados, mas será necessária uma demanda de mercado mais ampla para absorver a produção futura se dezenas de milhares de hectares forem restaurados a partir de práticas agroflorestais.

Mas aí reside um paradoxo: o açaí tornou-se recentemente o mais recente “superalimento” a chegar aos bairros gentrificados das cidades do norte global, mas Campos salienta que o aumento da demanda levou até mesmo a casos de desmatamento na Amazônia para dar lugar a monoculturas de açaí. “O extrativismo inerente ao livre mercado é o elefante na sala aqui”, diz Campos. Portanto, simplesmente criar a demanda não será suficiente, a menos que seja acompanhada de regulamentações e normas eficazes para garantir a diversidade e a proteção ambiental. Portanto, é preciso estar atento ao greenwashing; as empresas que compram desses projetos devem se comprometer com práticas regenerativas genuínas, e as cadeias produtivas de commodities precisam ser reestruturadas para valorizar os serviços ecossistêmicos e a resiliência em vez do volume por si só. Iniciativas como a “aquisição catalítica” – grandes compradores fortalecendo a compra de commodities sustentáveis – podem ajudar a sinalizar transformações no setor. Mas, até que esses mercados amadureçam, a agrofloresta terá que competir com os produtos das monoculturas e da pecuária extensiva, ambos impulsionadores por fortes subsídios.

Colheita e processamento de açaí em Tomé Açu, Brasil. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

E talvez o maior obstáculo ao crescimento do setor seja a falta de políticas públicas favoráveis ou de um apoio governamental mais amplo. A incerteza fundiária quanto à posse da terra é um problema específico em países como o Brasil, pois os pequenos agricultores e as comunidades tradicionais muitas vezes não possuem títulos formais de suas terras, o que os desestimula a fazer os investimentos de longo prazo exigidos para SAFs. Apenas 4% das 2.500 comunidades quilombolas do Brasil têm plenos direitos à terra, deixando as demais vulneráveis à grilagem de terras ou sem acesso a crédito. O progresso da reforma agrária no país tem sido notoriamente lento. Enquanto isso, a grande indústria do agronegócio do país está tão intimamente ligada ao poder econômico e politico que ainda se beneficia de bilhões de dólares em subsídios todos os anos, enquanto a agricultura regenerativa e a restauração florestal recebem um mínimo de apoio. O presidente Lula tentou reequilibrar essas escalas, reativando o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, por exemplo. Mas ele tem enfrentado dificuldades para “jogar dos dois lados”, como diz Campos, expandindo a conservação e a restauração e, ao mesmo tempo, apaziguando os grandes poderosos do agronegócio em Brasília.

“Onde está o mercado em escala industrial e a cadeia de abastecimento para produtos como açaí, cupuaçu ou mesmo cacau regenerativo? Porque certamente existe para carne bovina barata e soja ou óleo de dendê cultivados em monocultura.”

Essa ambivalência política prejudicou iniciativas ambientais importantes. A conferência global anual para que os governos avancem em questões climáticas — a COP —, cuja 30ª reunião ocorreu em Belém no final de 2025, notavelmente não conseguiu incluir uma referência significativa ao desmatamento em seu acordo final. Após a COP30, o governo do Pará adiou o prazo para a introdução de dispositivos de rastreamento em seus rebanhos bovinos, um golpe para os esforços ambientais de introduzir uma política regional que, segundo os defensores, é fundamental para prevenir o desmatamento. Outro exemplo recente foi uma proposta para transformar uma floresta amazônica protegida em Acará em um aterro sanitário: uma empresa privada – apoiada por autoridades locais – pretende desmatar 200 hectares de floresta conservada por quilombolas para construir um depósito de lixo. “Pedimos a intervenção de Lula e vamos levar o caso à Suprema Corte”, afirma o vereador de Acará, Iesley Vieira. “Como podemos ter a COP30 neste estado e, ao mesmo tempo, transformar a floresta nativa em um aterro sanitário? Não é coerente.”

Vereador de Acará, Iesley Vieira. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)

“Para apoiar a originação de novos negócios que recuperam áreas degradas no Brasil por meio de modelos produtivos e escalar a agricultura regenerativa, o recurso filantrópico é fundamental, tanto no suporte aos negócios para aumentarem seu impacto socioambiental, resiliência organizacional e estruturação financeira por meio de capital catalítico, quanto no fortalecimento da cadeia da restauração”, afirma Juliana Vilhena, Gerente de Estratégia, Gestão e Impacto do Fundo Vale. Na ausência de uma liderança eficaz por parte dos governos nacionais ou regionais – na forma de reforma dos programas de crédito, concessão de incentivos fiscais para agricultura regenerativa, garantia de direitos à terra, financiamento de P&D e serviços de extensão rural - a maior parte dos investimentos em agrofloresta continuará sendo filantrópica, e não comercial. As eleições gerais do Brasil neste ano serão fundamentais para essa direção, com uma vitória conservadora provavelmente fortalecendo os produtores industriais de gado e monoculturas, em detrimento do plantio de alternativas viáveis.

O panorama global: uma transição justa cresce a partir do chão

A promessa da agrofloresta vai além de colheitas e de carbono; representa uma solução climática baseada nos agricultores e na natureza, que une a descarbonização, a biodiversidade, a produção alimentar, a regeneração do solo e geração de renda. Mas só alcançará durabilidade como uma “transição justa” se de fato, enquanto conserve e restaure florestas,  também fortaleça as comunidades locais e os agricultores familiares. Como afirma Susan Patton-Cook, da TNC, qualquer iniciativa de transição climática junto ao setor agrícola deve melhorar os meios de subsistência dos trabalhadores rurais, caso contrário, “por que os agricultores se importariam com a neutralidade de carbono?” Assim, essas soluções devem ser projetadas em conjunto com os agricultores e adaptadas às necessidades locais. No Brasil, a agrofloresta começa a ser vista como o “auge da justiça climática”, pois aumenta em dez vezes a renda dos agricultores e ainda restaura a terra – mas os projetos devem ser construídos com base na segurança da posse da terra, no poder compartilhado e na participação genuína.

Tendo tais princípios como norte, a Belterra agora está tentando evoluir para conseguir levá-los para um grupo muito maior de agricultores. Ela está fazendo uma transição da gestão vertical de todos os SAFs para se tornar uma agente viabilizadora e agregadora de agroflorestas em escala paisagística – concentrando seus esforços no planejamento dos sistemas agroflorestais, na estruturação financeira dos mesmos e em contratos comerciais de longo prazo. A empresa fornecerá suporte para agricultores familiares, cooperativas e outros parceiros implementarem os SAFs por conta própria. “Buscamos nos tornar uma plataforma de cooperação e colaboração, compartilhando informações e modelos de negócios para construir um ecossistema capaz de transformar paisagens coletivamente”, diz Ortega. Seu objetivo é conseguir expandir a indústria agroflorestal o suficiente para restaurar “milhões de hectares de terras degradadas” de uma forma que seja replicável muito além do Brasil. No curto prazo, a Belterra pretende restaurar 20 mil hectares nos próximos quatro anos, com uma ambição de longo prazo que ultrapassa os 40 mil hectares.

Agricultores e famílias da Associação de Produtores de Sequestro de Carbono. (Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories) 

Há um enorme potencial para expandir a agrofloresta em todo o mundo. No Brasil, prevê-se que o tamanho do mercado de agroflorestal praticamente duplique, atingindo R$ 52 bilhões até 2032. Globalmente, há atualmente cerca de 1,2 bilhão de pessoas praticando alguma forma de prática agroflorestal em aproximadamente 1 bilhão de hectares de terra — desde o café cultivado à sombra na Ásia até o cultivo de corredores na África. “Fizemos uma pesquisa e encontramos sistemas agroflorestais em 83 países, compreendendo mais de 1.000 espécies de árvores e cerca de 300 culturas agrícolas", diz Cook-Patton, da TNC. “Há muitas agroflorestas por aí e muito potencial para expansão.” É importante ressaltar que ela enfatiza que o sucesso está em “encontrar o tipo certo de SAF adequado para determinado contexto”. Em outras palavras, cada SAF deve ser adaptado ao ambiente local – uma SAF de cacau com multi camadas de espécies prosperando no Pará pode não funcionar na savana africana, e um quebra-vento ou silvopastagem na Europa é muito diferente de uma agrofloresta amazônica.

No entanto, muitos acreditam que as agroflorestas oferecem seu maior potencial nos países tropicais. “Não temos radiação solar suficiente (a quantidade de energia solar disponível para as plantas por dia) na Europa para fazer algo assim”, observa Thomas Abrell, um agrônomo francês em visita de estudo à fazenda de Zé Maria, “é preciso estar em uma região tropical se quiser plantar um SAF tão biodiverso”. Em contrapartida, as fazendas temperadas podem integrar árvores de maneiras mais simples, como cercas vivas, pomares ou quebra-ventos. Mas, como Abrell aponta, a Europa carece de culturas agrícolas comerciais que gostam de sombra, como o cacau, e a luz solar no inverno é limitada. Os trópicos ensolarados e úmidos, no entanto, podem sustentar camadas diversas de copas e crescimento durante todo o ano; é por isso que muitos acreditam que as maiores sucessos das agroflorestas são esperadas na América Latina, África e Sul da Ásia. “Os sistemas agroflorestais são uma solução de transição crucial para o Brasil e outros países do Sul Global, abordando o uso da terra, a adaptação climática e o desenvolvimento rural”, diz Ortega. “Os sistemas agroflorestais têm alto potencial de remoção de gases de efeito estufa e oferecem um caminho viável de adaptação para um planeta mais quente e seco.”

Em toda a região tropical, exemplos concretos de SAFs estão surgindo rapidamente. No Sudeste Asiático, pesquisadores descobriram que a difusão de agroflorestas reduziu significativamente o desmatamento em cerca de 250 mil hectares por ano, evitando quase 59 milhões de toneladas de emissões de CO2 anualmente. A Indonésia, por exemplo, lançou este ano um programa nacional para plantar árvores ao lado de arroz e milho em 1,1 milhão de hectares de terras degradadas. Na África, o Quênia revelou recentemente uma Estratégia Nacional de Agrofloresta (2025-2035), com planos para estabelecer 5 milhões de acres de novas áreas agroflorestais e fazendas mistas até 2035. Na verdade, agricultores africanos praticam há muito tempo a agrofloresta por meio de práticas como a “regeneração natural assistida”. No Níger, por exemplo, a prática regenerou mais de 5 milhões de hectares de terras agrícolas áridas, cultivando cerca de 200 milhões de árvores e melhorando drasticamente a segurança alimentar nos últimos 20 anos.

As experiências da Belterra trazem algumas lições importantes para os promotores da agrofloresta que buscam ampliar a prática como uma solução climática sistêmica.

A primeira lição é “combinar os cronogramas de retorno de capital com o horizonte temporal das agroflorestas”, diz Ortega. O cultivo de uma floresta leva anos, muito mais tempo do que os períodos típicos de retorno do investimento. Soluções financeiras inovadoras, como adiantamentos de créditos de carbono e capital paciente, podem preencher essa lacuna de financiamento.

A segunda envolve mudar a estrutura de incentivos. Os mercados e as políticas agrícolas atuais ainda favorecem as commodities da monocultura. Para que os sistemas agroflorestais prosperem, os governos precisam introduzir políticas que recompensem práticas restaurativas da terra, em vez de apenas punir as práticas destrutivas.

A terceira lição é sobre promover uma cultura que valorize a diversidade e a paciência. Mudar de uma mentalidade monocultural para uma agroflorestal é tanto uma mudança técnica quanto cultural. Agricultores, governos, consumidores e empresas precisam ser educados para valorizar a sociobiodiversidade e a gestão de longo prazo, em oposição ao foco no rendimento de curto prazo.

E, por fim, manter os agricultores no coração do processo. As agroflorestas só podem ser ampliadas se atenderem às necessidades dos agricultores e das comunidades que cuidam da terra. “Agricultores familiares, povos indígenas e comunidades locais não são meros participantes – eles são portadores de direitos e protagonistas”, afirma Saulo Franco de Souza, do CIFOR-ICRAF. Seus conhecimentos, necessidades e aspirações devem orientar a concepção dos projetos, e os benefícios – desde títulos de propriedade até participação nos lucros – devem ser distribuídos de forma igualitária.

Agricultores familiares, povos indígenas e comunidades locais não são meros participantes – eles são portadores de direitos e protagonistas”

Ninguém representa melhor esta transição justa e agrícola justa do que Zé Maria. De uma monocultura de pimenta-do-reino seca e sem vida há uma geração, sua agrofloresta abundante agora não só está repleta de vida, mas também lhe rende renda suficiente para mandar sua filha para a faculdade e até comprar um apartamento na cidade – oportunidades que seus pais mal podiam imaginar. Seu sucesso inspirou os vizinhos a adotarem os mesmos métodos regenerativos, criando uma onda de mudança. No entanto, Zé Maria é rápido em dar crédito àqueles que o ensinaram. Ele compartilha uma lição de despedida transmitida por seu mentor, Michinori Konagano: “Plantas de diferentes tipos devem sempre estar em contato umas com as outras,  – assim como o caractere japonês para ‘pessoas’... É tudo uma questão de conexão e diversidade.” E talvez seja aí que resida o segredo: o que é melhor para o planeta também é o melhor para as pessoas.

Vista da Ilha de Marajó a partir do delta do rio Amazonas(Crédito: Oliver Gordon/JUST Stories)